domingo, 22 de maio de 2011

Insónia

Insónia

A madrugada está quente, quente.
Faz vento. É um vento também quente e sufocante, e que arrasta consigo ruídos que me amedrontam. São folhas pelo chão; ramos de árvores que gritam num suplício de dor ao desprenderem-se da mãe árvore; redemoinhos a dançar nas esquinas elevando pó e folhas do chão, mas assusto-me.
São três da manhã e não consigo dormir, e não é do calor, nem do vento e sei lá se é do medo.
Vou á janela do meu quarto e a noite surge-me iluminada por um estranho, mas belo luar.
Eu sei que é Agosto e o luar em Agosto é rico em luz, mas hoje, o luar é diferente; tem uma luz brilhante e líquida que atravessa a madrugada da minha imaginação.
Olhei a Lua, e lá estavas tu deitada no seu quarto minguante, em paz, como se fosse o leito eterno, e dormias profundamente, mas sonhavas.
Da janela do teu quarto eu podia ouvir o teu sonho:

Dorme meu menino a estrela-d’alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será pra ti (…)


terça-feira, 19 de abril de 2011

Um dia vou ser uma gaivota


UM DIA VOU SER UMA GAIVOTA
Não gosto de fazer praia, ou seja, não gosto de ficar deitado na areia exposto ao sol na torreira do verão. Faz-me comichão e fico com o corpo muito quente, e como não sei nadar, também não vou à água e fico deprimido.
Vou muitas vezes à praia, não para esturricar ao sol, mas para caminhar na areia molhada ou simplesmente olhar o mar.
Gosto de caminhar na areia molhada e de sentir a água a banhar-me os pés e do cheiro a maresia.
Não preciso do verão para caminhar na praia, basta não estar frio.
Gosto das praias que têm gaivotas; gosto de as ver a voar e a planar.
O voo das gaivotas parece muitas vezes desajeitado e cansativo, mas no seu planar, as gaivotas rasgam o céu sem esforço num suave chamamento à paz.
No verão são belas as gaivotas no céu azul, mas no inverno são fantasticamente belíssimas no acinzentado húmido dos fins de tarde, e parecem mais puras.
Um dia vou ser uma gaivota.
Foto: Matosinhos, praia dos Titans, 23/02/2009, 19H36

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A tela da memória

A tela da memória
Talvez eu tenha errado nas cores quando um dia te quis pintar,
porque não sabia bem se os teus olhos eram da cor do mar ou da cor do céu.
O que eu sabia, é que os teus cabelos eram da cor do mel,
e eram de mel, porque um dia adocicaram-me os lábios num breve roçar.
Já nem me lembro se existias ou se fui eu que te inventei.
Só me lembro de uma certa menina rica, de gatas numa praia, a perguntar se eu era rico,
(Isso sim, é real.)
E eu, muito triste, a dizer que a minha riqueza era o meu pensamento.
Pedis-te uma tesoura para cortares o fio do quadro onde eu te tinha pintado.
Dei-te a tesoura.
Partiu-se o quadro, só ficou a memória.

Manuel Martins da Silva
Castelo da Maia, 03/07/2009
Recordação de uma tarde na praia da Barra, Aveiro, Junho, 1980
A minha companhia nessa época, era o livro POESIA 4 de José de Almada Negreiros, que tem uma menina na praia a perguntar se eu sou rico.

UM BARCO VIRADO E ABANDONADO

UM BARCO VIRADO E ABANDONADO
Um barco. Um barco virado e abandonado, sinal do fim da navegação.
Quantas águas rasgou, quantas ondas galgou, quantas navegações fez e quantas ficaram por fazer?
Nunca uma navegação é completa para um barco, por muitas ondas que tenha sulcado, há sempre mais uma que ele gostaria de vencer.
Um barco. Um barco virado, destruído e abandonado.
Eu sei que há pessoas que são barcos.
Não gostaria que o meu barco acabasse virado e abandonado na praia. O meu barco, gostaria que se afundasse a meio da navegação, e eu, digno capitão, fosse ao fundo com ele, sem ter tempo de lançar um SOS, sem me lembrar das navegações que ficaram por fazer.
Manuel Martins da Silva
Porto, 18/04/2011
Nota: Texto escrito no Hospital de Santo António, enquanto aguardava um a consulta de oftalmologia.
Foto: Um barco abandonado no estuário do Douro (Cabedelo),19/03/2011
 Não há memória de um domingo assim”


Domingo triste
Naquele domingo tinha ficado na caserna. Lembro-me de que me sentia muito triste, porque estava um dia muito bonito do outro lado das paredes do quartel, e eu, sozinho, ali fechado.

Todos tinham ido passar o fim-de-semana a casa, ver amigos, namoradas…
O dia bonito lá fora, tornava-se mais triste porque eu não tinha ninguém à minha espera.
Acendi um cigarro, deitei-me a olhar para uma lâmpada apagada no tecto da caserna. Na rádio, um relato de futebol punha ainda mais tristeza àquele domingo que nunca mais passava.
Lá fora, certamente muita gente saboreava o dia bonito. E eu, ali, naquela tristeza! Eu sabia bem que não eram os muros que me fechavam!
Manuel Martins da Silva

Nota: Texto escrito para o tema "Não há memória de um domingo assim" e publicado na colectânea NO BRILHO DOS ESPELHOS em 2009, Edição da USRM.

É um texto memorial e que relembra um domingo de Dezemmro de 1974, passado no Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria, em Tavira, quando aí me encontrava a tirar a especialidade de Transmissões. Um dia de solidão e tristeza.

SOLIDÃO

Solidão
Parei o carro no parque de estacionamento na Boa Nova. Fiquei de frente para o mar, com o farol ao meu lado esquerdo, agora apagado, agora adormecido, mas mais logo passará toda a noite atento à navegação.
Está calor apesar de ser Outono. Se não fossem as duas bandeiras ondulando, já rasgadas por terem passado todo o Verão esvoaçando, quase não se sentia que as folhas das árvores vão começar a cair dentro em breve.
No rádio passa uma música que me faz lembrar um videoclip, só falta incluir o rapaz de calções que esta lá em baixo na água junto às rochas, com uma mão segurando o telemóvel no ouvido, e com a outra gesticulando como se estivesse a descrever a conversa às gaivotas.
Está um dia quase perfeito. Só faltas tu para o completares. Tu, que não sei quem és, mas faltas cá.
Sem te conhecer, sem saber quem és, lembrei-me de ti. Lembrei-me que se existisses, poderias estar aqui comigo, de mão dada, a olhar o mar, e eu passaria a mão pelos teus cabelos e ficaria encandeado com o teu olhar, meio doce, meio enigmático, mas penetrante. Depois iríamos almoçar. Um almoço tardio. Ficaríamos sentados na esplanada com o mar ao lado. Pegarias na ementa, e escolherias uma salada e um bom peixe grelhado. A bebida, deixarias que fosse eu a escolher, porque saberias que eu escolheria um vinho branco do Douro bem fresco. Depois brindaríamos e sei que me irias dar um beijo suave e eu acharia que teria sido um almoço quase perfeito, se tu existisses, mas almocei sozinho.

Manuel Martins da Silva
Praia da Boa Nova, Leça da Palmeira, 29/09/2009
Nota: Exercicio de solidão; texto de escrita criativa para as aulas de literatura da USRM.

O verbo haver

O verbo haver
Havia uma estrada,
Ao lado da estrada havia um rio,
Havia um carro na estrada,
E no carro tu e eu.
Havia tudo ali,
O sonho de te ter,
O medo de te perder,
E de não mais te encontrar.

Manuel Martins da Silva
Castelo da Maia, 03/07/2009
Nota: Poema escrito para as aulas de literatura e escrita criativa da USRM.

domingo, 17 de abril de 2011

A verdade e a mentira

Veritas et Mendacium

Hoje sonhei contigo,
e eras verdade.
Eu estava sentado nos rochedos à beira-mar,
e tu chegaste montada no teu cavalo alado.
Sorriste,
e disseste-me, olá.
Trazias um vestido azul claro, quase branco,
com estrelas cintilantes que eram sóis,
e um colar de morangos ao pescoço,
e deste-me um a um à boca sem deixares de sorrir.
De repente começou a chover,
e a chuva era quente
e suave
e não molhava.
Olhei à volta,
e os calendários diziam-me que era Setembro,
mas tu disseste que não, que era Maio,
e eu acreditei.
Tocaste-me,
e quando abri os olhos,
já tu voavas novamente no teu cavalo alado,
que era mentira, como Setembro.

Texto sobre a estranha ligação que há entre a verdade e a mentira, o real e o imaginário.
Dedicado a uma andorinha do mar que está presa numa gaiola.

FM

FM
O menino tinha um rádio. Um rádio que dizia ao menino como era o mundo para lá dos montes que cercam a sua aldeia triste.
O rádio trazia-lhe as vozes e a música que ele gostava de ouvir e, principalmente, muita companhia e muitos sonhos.
O menino adorava aquele rádio e mesmo quando a onda falhava no contorno dos montes e a música deixava de se ouvir, ou quando aquele ruído de fritadeira ou as interferências apareciam e abafavam tudo, o menino perdoava-lhe. Afinal, era o seu rádio!
Mas um dia começou a sair do altifalante do rádio uma voz melodiosa que anunciava: “Senhores ouvintes. Agora, para além da tradicional Onda Média, as nossas emissões também podem ser captadas em FM ou Frequência Modulada. Com esta nova técnica não há ruídos nem falhas de onda, as vozes e as músicas são captadas como se estivessem todos ao lado uns dos outros, como se não houvesse distância. Para captar as nossas emissões com esta nova maravilha da técnica, deverá adquirir um receptor equipado com FM.”
O menino ouviu e foi explicar tudo direitinho à mãe, mas quando pediu “ Mãe, compra-me um rádio com FM”, a resposta foi ”Não temos dinheiro, meu filho”. E o menino lá continuou a ouvir o seu rádio com falhas de onda, interferências e ruídos de fritadeira.
A voz melodiosa continuava a insistir nas maravilhas da nova técnica chamada FM e o menino também, mas a resposta era sempre a mesma “ Não temos dinheiro, meu filho”.
Um dia fez-se um clarão. A voz melodiosa tinha acabado de anunciar a nova maravilha da técnica da radiodifusão. A mãe estava sentada num banco na cozinha e o menino foi sentar-se nas suas pernas, colocou os seus braços pequenitos à volta do seu pescoço, encheu-a de beijos e quando pediu “Mãe compra-me um rádio com FM” a resposta foi “ Só se vendermos o porco”.
O menino saltou “Isso mãe, vende o porco e compra-me um rádio com FM!”.
Pouco tempo depois o porco foi vendido e a mãe chegou a casa com o novo rádio do menino. Pousou a caixa em cima da mesa. O menino abriu-a com cuidado. O rádio era preto e tinha um quadrante com nomes de cidades e números brancos cheios de Megahertz e um ponteiro vermelho que deslizava no meio deles. Da parte de cima tinha muitos botões, também pretos, também escritos a branco. Num deles estava a magia, FM. O menino carregou nesse botão e ligou o rádio. Do altifalante, mas como se estivesse ali ao lado, uma voz muito pura disse “Rádio Clube Português – Rede de Modulação de Frequência”.
O menino nem queria acreditar. Um rádio com FM no meio daquela aldeia triste. O seu rádio com FM! Agora o menino podia ouvir a sua música sem ruído, podia ouvir o seu mundo sem interferências!
O menino foi crescendo e tornou-se homem sem deixar de ser menino nem deixar de gostar de rádio e, quando agora ele vê escrito FM, ele sabe que isso quer dizer, Fantástica Mãe!

Homenagem à radio. Texto dedicado à minha mãe e publicado na colectânea NO BRILHO DOS ESPELHOS, edição USRM, 2009, relatando um facto real, mas é sobretudo um grito à prisão que era a minha aldeia durante a minha infância.

Pássaro Azul

Gosto da cor azul, desse azul luminoso que aparece a meio das tardes de verão e do azul quase violeta das noites de Setembro. Mas de todos os azuis, o azul mais bonito é o azul da essência dos sonhos. Posso afinar a cor dos sonhos adicionando mais ou menos água. Ontem juntei apenas algumas gotas e o azul do sonho ficou muito escuro, quase pesadelo. Hoje já sei, deito mais umas gotas de água para clarear o sonho. Gosto de sonhos claros. Vou colocar também um pássaro no meu sonho, talvez um pássaro azul para condizer, e coloco também um canavial e um lago. Na beira do lago ponho um barco abandonado e ao lado um pescador com a cana na mão e um cigarro no canto da boca à espera do peixe impossível. Sonho também que sou pintor e faço uma aguarela com o sonho. Depois acordo.