FM
O menino tinha um rádio. Um rádio que dizia ao menino como era o mundo para lá dos montes que cercam a sua aldeia triste.
O rádio trazia-lhe as vozes e a música que ele gostava de ouvir e, principalmente, muita companhia e muitos sonhos.
O menino adorava aquele rádio e mesmo quando a onda falhava no contorno dos montes e a música deixava de se ouvir, ou quando aquele ruído de fritadeira ou as interferências apareciam e abafavam tudo, o menino perdoava-lhe. Afinal, era o seu rádio!
Mas um dia começou a sair do altifalante do rádio uma voz melodiosa que anunciava: “Senhores ouvintes. Agora, para além da tradicional Onda Média, as nossas emissões também podem ser captadas em FM ou Frequência Modulada. Com esta nova técnica não há ruídos nem falhas de onda, as vozes e as músicas são captadas como se estivessem todos ao lado uns dos outros, como se não houvesse distância. Para captar as nossas emissões com esta nova maravilha da técnica, deverá adquirir um receptor equipado com FM.”
O menino ouviu e foi explicar tudo direitinho à mãe, mas quando pediu “ Mãe, compra-me um rádio com FM”, a resposta foi ”Não temos dinheiro, meu filho”. E o menino lá continuou a ouvir o seu rádio com falhas de onda, interferências e ruídos de fritadeira.
A voz melodiosa continuava a insistir nas maravilhas da nova técnica chamada FM e o menino também, mas a resposta era sempre a mesma “ Não temos dinheiro, meu filho”.
Um dia fez-se um clarão. A voz melodiosa tinha acabado de anunciar a nova maravilha da técnica da radiodifusão. A mãe estava sentada num banco na cozinha e o menino foi sentar-se nas suas pernas, colocou os seus braços pequenitos à volta do seu pescoço, encheu-a de beijos e quando pediu “Mãe compra-me um rádio com FM” a resposta foi “ Só se vendermos o porco”.
O menino saltou “Isso mãe, vende o porco e compra-me um rádio com FM!”.
Pouco tempo depois o porco foi vendido e a mãe chegou a casa com o novo rádio do menino. Pousou a caixa em cima da mesa. O menino abriu-a com cuidado. O rádio era preto e tinha um quadrante com nomes de cidades e números brancos cheios de Megahertz e um ponteiro vermelho que deslizava no meio deles. Da parte de cima tinha muitos botões, também pretos, também escritos a branco. Num deles estava a magia, FM. O menino carregou nesse botão e ligou o rádio. Do altifalante, mas como se estivesse ali ao lado, uma voz muito pura disse “Rádio Clube Português – Rede de Modulação de Frequência”.
O menino nem queria acreditar. Um rádio com FM no meio daquela aldeia triste. O seu rádio com FM! Agora o menino podia ouvir a sua música sem ruído, podia ouvir o seu mundo sem interferências!
O menino foi crescendo e tornou-se homem sem deixar de ser menino nem deixar de gostar de rádio e, quando agora ele vê escrito FM, ele sabe que isso quer dizer, Fantástica Mãe!
Homenagem à radio. Texto dedicado à minha mãe e publicado na colectânea NO BRILHO DOS ESPELHOS, edição USRM, 2009, relatando um facto real, mas é sobretudo um grito à prisão que era a minha aldeia durante a minha infância.

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