A tela da memória
Talvez eu tenha errado nas cores quando um dia te quis pintar,
porque não sabia bem se os teus olhos eram da cor do mar ou da cor do céu.
O que eu sabia, é que os teus cabelos eram da cor do mel,
e eram de mel, porque um dia adocicaram-me os lábios num breve roçar.
Já nem me lembro se existias ou se fui eu que te inventei.
Só me lembro de uma certa menina rica, de gatas numa praia, a perguntar se eu era rico,
(Isso sim, é real.)
E eu, muito triste, a dizer que a minha riqueza era o meu pensamento.
Pedis-te uma tesoura para cortares o fio do quadro onde eu te tinha pintado.
Dei-te a tesoura.
Partiu-se o quadro, só ficou a memória.
Manuel Martins da Silva
Castelo da Maia, 03/07/2009
Recordação de uma tarde na praia da Barra, Aveiro, Junho, 1980
A minha companhia nessa época, era o livro POESIA 4 de José de Almada Negreiros, que tem uma menina na praia a perguntar se eu sou rico.

Sem comentários:
Enviar um comentário